Apple entrega dados dos usuários chineses à companhia vinculada ao Exército da Libertação Popular

Os usuários de dispositivos da Apple na China podem ter tido outrora a expectativa de que poderiam armazenar seus dados no armazenamento em nuvem oferecido por esta empresa ocidental fora da vigilância do regime chinês. Na verdade, seus dados privados serão hospedados em breve por uma empresa de propriedade do Estado chinês, com vínculos íntimos ao Exército da Libertação Popular; fatos desconfortáveis que a empresa norte-americana não revelou aos milhões de usuários chineses de seus dispositivos.

Em 10 de janeiro, a Apple anunciou que a transferência para a empresa Guizhou Cloud Big Data (GCBD) do armazenamento remoto iCloud para usuários chineses de seus dispositivos ocorrerá em 28 de fevereiro. Aproximadamente 131 milhões de usuários de iPhone e milhões de usuários de iPad e Mac na China serão afetados, já que eles devem concordar com novos termos de serviço ou ter suas contas de iCloud encerradas.

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A decisão controvertida da Apple de entregar o acesso ao seu iCloud na China foi anunciada em julho de 2017, já que o gigante tecnológico afirmou que não tinha escolha senão cumprir com a nova lei de cibersegurança do regime chinês, que entrou em vigor em 1º de junho. A nova lei exige que empresas estrangeiras armazenem todos os dados originários da China em servidores na China. A GCBD é baseada na província de Guizhou, no Sudoeste da China.

De acordo com uma série de websites chineses de informações comerciais, a empresa de 3 anos GCBD está registrada como sendo de propriedade total do Comitê de Tecnologia Econômica e da Informação de Guizhou, que faz parte do governo provincial de Guizhou. Efetivamente, a nível nacional, o comitê está subordinado ao Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação do Conselho de Estado.

O comitê, no entanto, também tem outro nome oficial, “Comitê dos Trabalhos da Indústria de Defesa Nacional do Comitê Provincial do Partido Comunista em Guizhou”. A prática de ter dois nomes oficiais para um escritório físico é comum em todos os níveis dos governos civis da China e do aparato do Partido Comunista Chinês, já que o Partido afirma seu poder e controle por meio desse mecanismo. Nesse arranjo, a organização do Partido sempre prevalece tendo a palavra final.

China, Apple, iCloud, vigilância, Exército da Libertação Popular, big data, privacidade - Captura de tela do website chinês de informações de negócios Guizhou-Cloud Big Data (GCBD), uma empresa que em breve controlará os servidores de iCloud da Apple para os usuários na China e é totalmente controlada pelo "Comitê dos Trabalhos da Indústria de Defesa Nacional do Comitê Provincial do Partido Comunista em Guizhou" (destacado em vermelho na imagem), que é um órgão diretamente conectado ao Exército da Libertação Popular da China (Captura de tela via China Digital Times)
Captura de tela do website chinês de informações de negócios Guizhou-Cloud Big Data (GCBD), uma empresa que em breve controlará os servidores de iCloud da Apple para os usuários na China e é totalmente controlada pelo “Comitê dos Trabalhos da Indústria de Defesa Nacional do Comitê Provincial do Partido Comunista em Guizhou” (destacado em vermelho na imagem), que é um órgão diretamente conectado ao Exército da Libertação Popular da China (Captura de tela via China Digital Times)

As funções exatas do “Comitê dos Trabalhos da Indústria de Defesa Nacional” são uma ampla fonte de especulação, mas os especialistas dizem que, de uma forma ou de outra, ele está associado aos militares da China. Oficialmente, o comitê e órgãos similares em várias províncias da China são responsáveis ​​pela supervisão do enorme complexo militar-industrial do regime chinês usado para equipar e manter o Exército da Libertação Popular (ELP).

Ying-Yu Lin, professor do Instituto de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Nacional Chung Cheng de Taiwan, disse que existe um vínculo definitivo entre esse comitê e o ELP. A GCBD provavelmente dará ao ELP todos os acessos desejados aos servidores iCloud da Apple na China, disse Ying-Yu.

Numa entrevista de dezembro de 2016 com uma mídia estatal, o vice-diretor do Comitê de Tecnologia Econômica e da Informação de Guizhou, Wang Jian, que também atua como membro oficial do Comitê dos Trabalhos da Indústria de Defesa Nacional de Guizhou, admitiu abertamente que uma das tarefas “estratégicas” do Comitê é canalizar “grandes dados” (big data) de fontes civis para os militares, um processo que ele mesmo chamou de “Operação Big Data“.

As palavras “integração civil-militar” foram mencionadas num total de 83 vezes na entrevista de Wang Jian, que ele descreveu como parte da política mais ampla do regime chinês para facilitar o fluxo de recursos, dados e tecnologias da esfera civil da China para suas forças armadas.

Ying-Yu Lin disse que essas declarações dos funcionários do regime chinês substanciam ainda mais a conexão entre o ELP e a GCBD, a empresa que agora está obtendo o controle de todos os dados privados do iCloud armazenados pelos usuários chineses de dispositivos da Apple.

China, Apple, iCloud, vigilância, Exército da Libertação Popular, big data, privacidade - Chineses olham o novo iPhone X numa loja da Apple em Hangzhou, na província de Zhejiang, no Leste da China, em 3 de novembro de 2017 (STR/AFP/Getty Images)
Chineses olham o novo iPhone X numa loja da Apple em Hangzhou, na província de Zhejiang, no Leste da China, em 3 de novembro de 2017 (STR/AFP/Getty Images)

O regime chinês e o ELP não estão apenas interessados nos dados privados dos usuários chineses da Apple, disse Ying-Yu Lin, mas eles também poderiam estar buscando a tecnologia por trás do iCloud da Apple, que eles poderiam usar para capacitar as plataformas de gerenciamento de campo de batalha do ELP, especialmente em áreas relacionadas a computação em nuvem.

Enquanto a Apple não respondeu à solicitação do Epoch Times para um comentário, seu anúncio para os usuários do iCloud na China e os novos termos de serviço não fazem qualquer menção de que a GCBD é uma empresa estatal, e muito menos o fato de que a tecnologia poderia ser livremente acessada pelo Exército da Libertação Popular.

A capitulação da Apple para o regime chinês somasse à lista de empresas americanas que foram sujeitas à transferência forçada de tecnologia e dados, algo que se tornou uma questão muito contestada nas relações comerciais entre os Estados Unidos e a China, enquanto a gestão Trump tem repetidamente pressionado a China para acabar com essas práticas.

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